6.09.2006

A visita!

O Januário tem a minha idade. Andou comigo na escola. Lado a lado na carteira, descobrimos as batalhas e as glórias do reino de Portugal, o orgulho do império, os rios e as serras, os heróis e os vencidos e outros mistérios da nossa cândida adolescência.
Veio visitar-me. Trouxe-me queijinhos de ovelha, linguiças e um tarro com azeitonas temperadas com louro e orégão.
— Andas de luto por quem? — pergunto.
— Olha, já nem sei. Primeiro foi a minha mãe, depois o meu irmão, agora a minha mulher. As nossas dores nunca acabam. É o destino. Se calhar foi uma sorte para ela. Eu devia era ter coragem para fazer o mesmo. Às vezes a morte parece a sorte grande do totoloto dos pobres. Sabes lá o que tem sido a nossa vida desde que entregaram as terras aos antigos proprietários e as deixaram abandonadas.
Está tudo a voltar ao antigamente ou ainda pior. Há anos que não se sabia o que era fome. Até a essa desgraça voltámos. Ainda houve um tempo em que se falava dos direitos dos trabalhadores, nos campos, e mais isto e mais aquilo. Ser camponês depois do vinte e cinco de Abril era uma honra, respeitavam-nos, o Alentejo andava na boca do mundo. Labutávamos de manhã à noite, até a terra parecia estar do nosso lado, tudo o que semeávamos, vingava. Depois foi o que se sabe. E hoje é esta a desgraça: não há trabalho, os homens andam ao deus dará..., a agricultura acacabou..., o alentejo morreu...
Nós não somos gente de esmolas, de mendigar. Mendigar porquê, se temos braços de trabalho e vergonha na cara...
Alguns não aguentam. Foi o que aconteceu à minha Chica. Uns atiram-se para os poços, outros enforcam-se e outros envenenam-se. Destas coisas não falam eles na televisão, têm medo que saiba lá no estrangeiro.

Falavas, Januário, falavas. Tinhas de tecer as tuas amarguras, o teu desencanto. Desde o tempo de escola que talvez não falasses tanto. As mãos não paravam de ajeitar a gola do casaco. Éramos dois homens a conversar e tu mostravas as chagas todas, as setas da amargura e o arco de quem as atirara. Nem te interrompi, escutava apenas. Estamos sem trabalho e sem salário, a arrogância desta gente é cada vez maior.
Tu não viste o que fizeram em Moura? Deu na televisão! Até comida estragada mandaram para lá. Vê bem ao que chegámos. Esmolas e ainda por cima tudo podre. Ele é que a deviam comer. Depois vingam-se em chamar-nos comunistas. Parece que em vez das mãos nuas e cheias de calos que temos, destas mãos que serviram para lhes encher os cofres e a barriga, só carregámos balas.
Só queria que visses o que me fizeram no dia da entrega das terras! Tu estavas cá em Lisboa, mas deves ter ouvido falar, que isto veio nos jornais e deu na televisão. Entraram no Monte. Uns montados nos cavalos, outros armados até aos dentes, com cães à trela, a rosnar. Só de os olhar a alma se nos revoltava. As crianças agarradas às saias das mães. Os velhotes, de pé, calados, pareciam homens mais novos, ombro a ombro, tão juntos que nem uma asa de borboleta os atravessava.
Nessa altura o meu filho a chorar, perguntou que mal é que os camponeses tinham feito, que crime era este de por a terra bravia a dar pão e se era melhor arrancar árvores e olivais que levaram anos para se formarem e deixar hectares e hectares de terra cheios de tojos e urzes e tanta gente desempregada e com fome. O guarda bateu-lhe com a coronha da espingarda. Então, todos nós avançamos. Pegámos nas nossas foices, nas nossas enxadas e nos sachos. Não se ouvia um grilo sobre a tarde, só os nossos passos juntos sobre o restolho. Um dos guardas disparou. Mas, há uma altura em que o povo já não tem medo das balas, nem de guardas, nem da morte. Há uma altura em que só temos no coração o peso da amargura, a raiva de tanto sermos espezinhados, de tanto baixar-mos os olhos e nos calar-mos, de só servirmos para fazerem pouco da gente nas anedotas e rirem-se, afinal, da ignorância deles próprios.
Calou-se. Olhou-me de frente pela primeira vez. Suspendeu o gesto inquieto das mãos na gola do casaco. Tinha os olhos brilhantes, os lábios secos. Há uma altura em que a morte é uma flor que tem de se colher para não deixarmos de ser gente. Se aguentamos pelos cornos esta maldita vida, como é que a morte nos há-de meter medo. Continuámos a avançar. Era um silêncio sem pássaros, parecia que a terra nos desafiava para medir o tamanho da nossa coragem ou da nossa cobardia. O meu filho escorria em sangue, mas eu, se queres que te diga, já não tinha mulher nem filhos. Tinha os meus mortos todos dentro de mim a tomarem-me conta da alma e do meu ser. Todos os mortos que esta gente mata, prende, explora e pisa, estavam ali dentro do meu coração. Ninguém os podia ver. Mas eu sentia-os e sabia que se parasse naquela hora, não viveria depois da minha morte.
Nenhum coração se lembraria mais de mim e da minha família em terras Alentejanas. Doíam-me as mãos da força com que agarrei a foice, doía-me o coração de ver ali o meu filho a gemer de dor, e de tantos homens e mulheres debaixo daquele sol escaldante a lutar pelo direito ao trabalho, desafiando as espingardas e casse-têtes e o ódio a quem devia de estar a nosso lado. Porque o nosso crime era este: desejar trabalho, pão e justiça para todos. Se isto era crime, meu amigo! Bastava olhar nas armas da nossa luta: enxadas de cavar a terra, foices de colher o pão, sachos de colher a erva e semear flores.
— Já não há ninguém que nos ame. Olho-te o corpo magro Januário. És o homem que ainda grita liberdade, e o teu grito é também ainda o de muitos homens e mulheres que levantam a foice por sobre as searas maduras do mundo onde, imagina, ainda acredito que um dia haverá pão, trabalho e justiça igual para todos. Ontem ouvi o discurso do Sr. Primeiro Ministro e vejo, Januário, que o tempo da tua indignação está a terminar. A fome no Alentejo, como o arrastão da praia de Carcavelos, milhares de pessoas que ficam sem emprego..., é tudo mentira, boatos de gente de esquerda empenhada em inquietar os corações tranquilos, dos que vivem na abundância, viajam e se banqueteiam.
Podes dizer lá na nossa terra, que o tempo do desemprego acabou, que as árvores vão florir e haverá pão, leite, carne e que a vergonha das esmolas chegou ao fim. Se alguma coisa ainda te pode alegrar nesse fato negro de viúvo, do homem que perdeu a mulher no fundo de um poço onde lavou as mágoas da sua humilhação.
Alegra-te, Januário.
A morte do teu irmão, alvejado pelas balas dos guardas assassinos, a morte da tua mulher, asfixiada pela amargura. Assim como de todos aqueles que na luta tombaram, e aqueles que ainda têm força para continuar a lutar pela liberdade, pela justiça igual para todos, pelo direito ao trabalho, e por todos os direitos humanos. São esses a bandeira, os ídolos, os heróis do povo trabalhador.
Por isto, alegra-te, Januário…