9.08.2011

recanto de amonteny

Comentem..., Escrevam qualquer coisa, com ou sem jeito...

12.18.2008

O meu novo projecto, dum projecto antigo!


Escrevam coisas de jeito!!!
Posted by Picasa

6.15.2006

Aquecimento Global da Terra !

6.09.2006

A visita!

O Januário tem a minha idade. Andou comigo na escola. Lado a lado na carteira, descobrimos as batalhas e as glórias do reino de Portugal, o orgulho do império, os rios e as serras, os heróis e os vencidos e outros mistérios da nossa cândida adolescência.
Veio visitar-me. Trouxe-me queijinhos de ovelha, linguiças e um tarro com azeitonas temperadas com louro e orégão.
— Andas de luto por quem? — pergunto.
— Olha, já nem sei. Primeiro foi a minha mãe, depois o meu irmão, agora a minha mulher. As nossas dores nunca acabam. É o destino. Se calhar foi uma sorte para ela. Eu devia era ter coragem para fazer o mesmo. Às vezes a morte parece a sorte grande do totoloto dos pobres. Sabes lá o que tem sido a nossa vida desde que entregaram as terras aos antigos proprietários e as deixaram abandonadas.
Está tudo a voltar ao antigamente ou ainda pior. Há anos que não se sabia o que era fome. Até a essa desgraça voltámos. Ainda houve um tempo em que se falava dos direitos dos trabalhadores, nos campos, e mais isto e mais aquilo. Ser camponês depois do vinte e cinco de Abril era uma honra, respeitavam-nos, o Alentejo andava na boca do mundo. Labutávamos de manhã à noite, até a terra parecia estar do nosso lado, tudo o que semeávamos, vingava. Depois foi o que se sabe. E hoje é esta a desgraça: não há trabalho, os homens andam ao deus dará..., a agricultura acacabou..., o alentejo morreu...
Nós não somos gente de esmolas, de mendigar. Mendigar porquê, se temos braços de trabalho e vergonha na cara...
Alguns não aguentam. Foi o que aconteceu à minha Chica. Uns atiram-se para os poços, outros enforcam-se e outros envenenam-se. Destas coisas não falam eles na televisão, têm medo que saiba lá no estrangeiro.

Falavas, Januário, falavas. Tinhas de tecer as tuas amarguras, o teu desencanto. Desde o tempo de escola que talvez não falasses tanto. As mãos não paravam de ajeitar a gola do casaco. Éramos dois homens a conversar e tu mostravas as chagas todas, as setas da amargura e o arco de quem as atirara. Nem te interrompi, escutava apenas. Estamos sem trabalho e sem salário, a arrogância desta gente é cada vez maior.
Tu não viste o que fizeram em Moura? Deu na televisão! Até comida estragada mandaram para lá. Vê bem ao que chegámos. Esmolas e ainda por cima tudo podre. Ele é que a deviam comer. Depois vingam-se em chamar-nos comunistas. Parece que em vez das mãos nuas e cheias de calos que temos, destas mãos que serviram para lhes encher os cofres e a barriga, só carregámos balas.
Só queria que visses o que me fizeram no dia da entrega das terras! Tu estavas cá em Lisboa, mas deves ter ouvido falar, que isto veio nos jornais e deu na televisão. Entraram no Monte. Uns montados nos cavalos, outros armados até aos dentes, com cães à trela, a rosnar. Só de os olhar a alma se nos revoltava. As crianças agarradas às saias das mães. Os velhotes, de pé, calados, pareciam homens mais novos, ombro a ombro, tão juntos que nem uma asa de borboleta os atravessava.
Nessa altura o meu filho a chorar, perguntou que mal é que os camponeses tinham feito, que crime era este de por a terra bravia a dar pão e se era melhor arrancar árvores e olivais que levaram anos para se formarem e deixar hectares e hectares de terra cheios de tojos e urzes e tanta gente desempregada e com fome. O guarda bateu-lhe com a coronha da espingarda. Então, todos nós avançamos. Pegámos nas nossas foices, nas nossas enxadas e nos sachos. Não se ouvia um grilo sobre a tarde, só os nossos passos juntos sobre o restolho. Um dos guardas disparou. Mas, há uma altura em que o povo já não tem medo das balas, nem de guardas, nem da morte. Há uma altura em que só temos no coração o peso da amargura, a raiva de tanto sermos espezinhados, de tanto baixar-mos os olhos e nos calar-mos, de só servirmos para fazerem pouco da gente nas anedotas e rirem-se, afinal, da ignorância deles próprios.
Calou-se. Olhou-me de frente pela primeira vez. Suspendeu o gesto inquieto das mãos na gola do casaco. Tinha os olhos brilhantes, os lábios secos. Há uma altura em que a morte é uma flor que tem de se colher para não deixarmos de ser gente. Se aguentamos pelos cornos esta maldita vida, como é que a morte nos há-de meter medo. Continuámos a avançar. Era um silêncio sem pássaros, parecia que a terra nos desafiava para medir o tamanho da nossa coragem ou da nossa cobardia. O meu filho escorria em sangue, mas eu, se queres que te diga, já não tinha mulher nem filhos. Tinha os meus mortos todos dentro de mim a tomarem-me conta da alma e do meu ser. Todos os mortos que esta gente mata, prende, explora e pisa, estavam ali dentro do meu coração. Ninguém os podia ver. Mas eu sentia-os e sabia que se parasse naquela hora, não viveria depois da minha morte.
Nenhum coração se lembraria mais de mim e da minha família em terras Alentejanas. Doíam-me as mãos da força com que agarrei a foice, doía-me o coração de ver ali o meu filho a gemer de dor, e de tantos homens e mulheres debaixo daquele sol escaldante a lutar pelo direito ao trabalho, desafiando as espingardas e casse-têtes e o ódio a quem devia de estar a nosso lado. Porque o nosso crime era este: desejar trabalho, pão e justiça para todos. Se isto era crime, meu amigo! Bastava olhar nas armas da nossa luta: enxadas de cavar a terra, foices de colher o pão, sachos de colher a erva e semear flores.
— Já não há ninguém que nos ame. Olho-te o corpo magro Januário. És o homem que ainda grita liberdade, e o teu grito é também ainda o de muitos homens e mulheres que levantam a foice por sobre as searas maduras do mundo onde, imagina, ainda acredito que um dia haverá pão, trabalho e justiça igual para todos. Ontem ouvi o discurso do Sr. Primeiro Ministro e vejo, Januário, que o tempo da tua indignação está a terminar. A fome no Alentejo, como o arrastão da praia de Carcavelos, milhares de pessoas que ficam sem emprego..., é tudo mentira, boatos de gente de esquerda empenhada em inquietar os corações tranquilos, dos que vivem na abundância, viajam e se banqueteiam.
Podes dizer lá na nossa terra, que o tempo do desemprego acabou, que as árvores vão florir e haverá pão, leite, carne e que a vergonha das esmolas chegou ao fim. Se alguma coisa ainda te pode alegrar nesse fato negro de viúvo, do homem que perdeu a mulher no fundo de um poço onde lavou as mágoas da sua humilhação.
Alegra-te, Januário.
A morte do teu irmão, alvejado pelas balas dos guardas assassinos, a morte da tua mulher, asfixiada pela amargura. Assim como de todos aqueles que na luta tombaram, e aqueles que ainda têm força para continuar a lutar pela liberdade, pela justiça igual para todos, pelo direito ao trabalho, e por todos os direitos humanos. São esses a bandeira, os ídolos, os heróis do povo trabalhador.
Por isto, alegra-te, Januário…

6.07.2006

Olha, eles! Os passarões !!!


Na mesma escola..., lado a lado, aprendi com eles os reis, os rios e as serras de Portugal !

O fim da Pobreza e da Miséria é uma exigência ética, moral e social mais que justa e imprescindível. Que ninguém tenha qualquer dúvida: Sem a erradicação da pobreza e da miséria no Mundo a sociedade humana caminhará inelutavelmente para a violência e a insegurança extremadas. Não se trata de futurologia ou premonição, mas apenas de um diagnóstico social que receio estar certo. Já o disse e escrevi repetidamente: se não acabarmos com essa grande vergonha mundial, mas também nacional, seremos todos responsáveis pelo advir funesto de graves problemas cujos sinais, já são mais que visíveis: Nada poderá impedir que os famintos se atirem contra as barreiras de arame farpado, de minas ou demetralhadoras que supostamente defendem a nossa fortaleza evitando que eles se sentem à nossa mesa tantas vezes farta de proteccionismo, de subsídios agrícolas que aniquilam povos esquecidos e nos enfermam numa obscena e mortal obesidade. Os famintos encontrarão, como sempre encontraram na História da Humanidade, líderes para os guiarem nessa caminhada de sofrimento... Tal como no passado, nada poderá impedir a caminhada, o êxodo, de milhões e milhões de pessoas para uma visão do Eldorado que eles fazem do nosso mundo, quando comparado com o seu miserável quotidiano. Para quem conhece um pouco de História, sabe perfeitamente como acabou o decadente e farto, de orgias e de vómitos, o Império Romano... E a Europa está bloqueada por líderes incompetentes e insensíveis escudados na sua visão ultraliberal autista, absolutista e em manifesta falência, preparada para impedir, com acções decisivas, inteligentes e humanistas, que tal aconteça? Tal exigiria uma mudança radical dos seus líderes, do seu discurso e sobretudo da sua acção. Sinceramente duvido. E mais..., temo muito que já seja tarde. Acontecimentos violentos e incontroláveis como os observados em Melila, motivados pelo desespero total, contribuirão para que a Europa reforce a sua vertente securitária, agora contra os famintos que em breve talvez sejam apelidados de terroristas e se feche na sua torre de marfim fazendo a política da avestruz como tem feito até hoje: sem nenhum rasto e nenhuma ousadia criativa. Tal autismo, quanto a mim, não augura nada de bom. Alguns pensarão: mais um Velho do Restelo! Enganam-se redondamente. Contrariamente ao que muitos "opinion makers" dizem, quantas vezes sustentados apenas por conhecimentos desfocados puramente livrescos e teóricos, nutridos por discussões de café tão ociosas quanto vácuas e desfocadas. O que eu digo é sustentado no que observo com preocupação e tristeza nas sete partidas do Mundo, há quase três décadas. Não há mais tempo a perder. Como cidadãos globais que queremos e devemos ser, nós Portugueses, mais do que ninguém, temos que exigir que os objectivos do Milénio sejam atingidos em 2015, como prometeram os governantes do mundo inteiro, na Cimeira do Milénio das Nações Unidas, em Nova Iorque, no ano 2000. Não podemos permitir nenhuma escapatória ou desculpa: se há dinheiro, muitas centenas de biliões de dólares ou euros, para corromper governos, comprar armas e financiar todas as guerras, mesmo as mais espúrias como a do Iraque, também tem que haver meios para se acabar com essa vergonha imunda, a Pobreza, a Fome, a Humilhação silenciosa e ensurdecedora dos miseráveis que estou cansado de encontrar pelo Mundo. Mas também no nosso país. Não tolero vê-los morrer como moscas, à fome, tiros ou doenças esquecidas, sem um grito porque esmagados por uma, quanto a mim, inaceitável fatalidade. É uma questão de decência. É um imperativo de consciência. Tem de ser a Causa Mundial, tal deve ser também a nossa Causa Nacional. Para alguns estarei a ser, talvez, politicamente incorrecto e ainda bem!Entendo que ao ponto em que a nossa sociedade humana chegou é imperioso gritar, mesmo se forem só gritinhos de rato, e tentarmos ser sobretudo e apenas humanamente correctos. É tão só isso que me move: doa a quem doer. Também me dói a mim ver o que vejo, viver o que vivo... Grito em nome dos famintos e dos miseráveis silenciados e sem voz com quem me cruzo, quantas vezes impotente, há tanto tempo e em todos os continentes. O tempo das palavras terminou. Eis chegado o momento das grandes opções e da acção. Pretendo, com todos vós, filhos do mesmo e único Deus, contribuir com uma microgota para a necessária mudança da nossa Humanidade. Acabar com a Pobreza e a Miséria, também entre nós, é imperioso, é inalienável: é simplesmente uma questão de inteligência, de humanismo. Só assim poderemos continuar em Democracia, em Paz e em Segurança.

Alves Monteny